Nos últimos cinco anos, o ansiolítico Rivotril, cujo princípio ativo clonazepam é indicado para síndrome do pânico e fobia social, escalou o ranking dos remédios mais vendidos no Brasil e abocanhou o segundo lugar, de acordo com o Instituto IMS Health, que audita a indústria farmacêutica. O remédio perde apenas para o anticoncepcional Microvlar. O medicamento da classe dos benzodiazepínicos, como Lexotan, Valium, Diazepam e Frontal, é o primeiro da lista em se tratando dos remédios tarja preta, vendidos apenas com retenção de receita. No Rio Grande do Norte, pacientes que começaram a tomar o remédio não conseguem mais parar, porque a interrupção traz de volta sintomas de síndrome de pânico. O uso não é unanimidade entre os profissionais de saúde e há quem defenda a suspensão após algum tempo, justamente para evitar dependência.
Para Marcelo Kimati, consultor da Coordenação Nacional de Saúde Mental, da Secretaria Nacional de Assistência à Saúde, o grande volume de vendas pode estar relacionado a uma má prescrição por parte dos médicos. O remédio deve ser prescrito apenas em casos extremos, o que nem sempre ocorre. “A substância Clonazepam (presente no Rivotril) cria uma dependência bastante intensa em quem usa o medicamento durante um longo período”, justifica.
Segundo ele, a Secretaria Nacional de Assistência à Saúde está preocupada com o uso dos medicamentos benzodiazepínicos, entre eles o próprio Rivotril, devido ao alto poder de causar dependência química. Para o psiquiatra clínico e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Maurilton Morais, outro fator pode estar por trás do aumento das vendas. “O Rivotril é barato”, resume. Nas farmácias, a caixa com 30 comprimidos de 2mg custa em média R$ 14,40. A versão em gotas, que faz efeito mais rápido, é ainda mais barata. Apenas R$11,80.
Segundo ele, remédios que tenham o Clonazepam como princípio ativo devem ser usados em períodos relativamentecurtos e retirados posteriormente, às vezes com ajuda de outros medicamentos. Para Marcelo Kimati, o problema é que “essa retirada não é feita, porque boa parte dos médicos não está atenta ao risco de dependência química”. A lógica é simples. “Se essa retirada não é feita, o paciente se torna dependente da substância e o consumo do medicamento cresce”.
Nociva para o paciente, a dependência química criada pelo medicamento é bastante rentável para a indústria farmacêutica. De acordo com o psiquiatra Maurilton, este tipo de medicamento não é receitado apenas por psiquiatras. “A Sociedade Brasileira de Psiquiatria (ABP) fez um levantamento e constatou que o psiquiatra está em quinto lugar no ranking nacional de prescritores do Clonazepam. Antes dele, está o clínico geral, o cardiologista”, informa. Segundo ele, o clonazepam “é uma substância que está sendo prescrita abusivamente por vários médicos”. Na avaliação dele, o problema não é o médico receitar Rivotril. “O problema é não alertar para a consequência a longo prazo”.
Paciente recebeu prognóstico desanimador
A dona de casa Luciana (os nomes são fictícios), 51, toma Clonazepam há quatro anos. “Antes eu sentia o corpo tremer, tinha medo de tudo, não queria sair de casa, ficava muito ansiosa, sentia falta de ar e meu coração batia sempre acelerado. Fui até ao neurologista e ele falou que eu estava com depressão e síndrome do pânico e disse que eu deveria tomar Rivotril”.
Ao longo dos quatro anos, ela suspeitou de uma possível dependência química e até tentou interromper o uso por conta própria. Mas voltou a sentir tremores no corpo e espasmos. Preocupada, procurou novamente o neurologista, que a advertiu. “Ele me disse que eu deveria tomar este medicamento para o resto da minha vida”, conforma-se. Até hoje, ela toma o medicamento. São cerca de 20 gotas por dia, antes de dormir. “Se eu parar de tomar, os tremores voltam e aí não adianta”.
O corretor de imóveis Flávio, 34, começou a tomar o medicamento por indicação do cunhado. “Meu cunhado é assessor de juiz e passa o dia inteiro vendo confusão. O trabalho dele é muito estressante. Para se acalmar dos absurdos do dia, ela toma Rivotril. Foi ele quem indicou o medicamento para mim”, afirma.
Flávio tem insônia. Só consegue adormecer de madrugada e precisa acordar cedo para trabalhar. O sono não tem qualidade. Pensou que conseguiria resolver o problema tomando Rivotril. Foi aí que percebeu: havia acabado de cair numa armadilha. “Tomei duas cartelas, depois decidi parar de tomar. O remédio tem um lado bom e um lado ruim. Um dia tomei uma dose um pouco maior e fiquei abestalhado. Passei três dias para voltar para a realidade. O efeito é prolongado e o medicamento causa dependência. Tomei poucas vezes. Quando vi que estava ficando viciado, disse ‘eu vou parar’. O organismo se acostuma e sente falta. Tem que ser forte para deixar. Tive que me livrar dele rápido.Ele estava prejudicando minha vida social, física, sexual e financeira”, relata.
Quando parar
A partir de dois meses, médicos dizem que o uso deve estar sob constante monitoramento. Além da dependência química que pode ser irreversível, o uso contínuo pode causar perda de memória, irritabilidade e até mesmo depressão. Durante a gravidez, pode causar aborto. Como todos os sedativos do sistema nervoso central, em doses muito altas podem causar sonolência, reflexos diminuídos, confusão, coma, parada respiratória e, no extremo, morte. Mas as doses precisam ser muitíssimo altas, acrescenta Montagna.
Por Andrielle Mendes, para o Diário de Natal