O Ministério Público (MP) apresentou, ontem, denúncia na Comarca de Santa Luzia, a 261,2 km da capital, contra 15 pessoas presas na operação ‘Conexão Sertão’, acusadas de participar de uma quadrilha especializada em narcotráfico no Sertão paraibano e com fortes indícios de participação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), no encaminhamento da droga.
O dossiê ‘Conexão Sertão’ levantado pela Polícia Federal (PF) e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) revela a existência de uma organização criminosa de grande influência no comércio de drogas ilegais procedentes da Colômbia e da Bolívia no Sertão paraibano. O esquema, que tinha como principal substância vendida a cocaína em forma de crack, ocorria articulado com diversos estados brasileiros que abasteciam a região.
O material, que a reportagem de O Norte teve acesso com exclusividade, revela que a cidade de Patos funcionava como sede do esquema que abastecia os municípios paraibanos de Sousa, Itaporanga, Santa Luzia, Cajazeiras, bem como em Caicó, no Rio Grande do Norte.
As conversas do grupo demonstram que a droga vendida era de boa qualidade, associando o produto à gíria “Capa de Revista”. Pelo esquema de tráfico internacional de drogas, a cidade de Patos é apontada um dos principais pontos na rota de cocaína, com uma estrutura montada em local reservado aos criminosos com contas a prestar à Justiça: a Penitenciária de Segurança Máxima de Patos, onde traficantes presos e com longa ficha criminal comandavam o comércio de cocaína através de um disque droga nas dependências da unidade. Todas as ações eram praticadas por ordem de Silberto Pereira Morais. Ele fazia contatos através de telefones celulares e acertava com outros presos estratégias para montar uma rede de distribuição com o maior número possível de pessoas em várias cidades do Sertão da Paraíba.
De acordo com a PF, o empresário José Oberon Laurentino de Souza, conhecido como “Dedé Oberon”, era quem comandava todo esquema de compra e repasse de toneladas de cocaína adquirida junto às Farc. O relatório da PF e que ensejou com a prisão de 15 pessoas com base em parecer do Ministério Público de Santa Luzia, revelou que detentos recolhidos ao Presídio Regional de Patos tinham muitas regalias em função da facilitação mantida pelo diretor da unidade, o tenente da Polícia Militar, Olímpio.
Prefeitura e faculdades estão na mira da PF
O tenente Olímpio está à frente do carga há 22 anos, segundo o documento, que revela também relatos de que mudança de governo ao longo do tempo nunca foi empecilho para o militar não permanecer no cargo. A acusação é de que ele deixava ocorrer o tráfico de drogas dentro do presídio e permitia que telefones celulares fossem usados pelos presos. As investigações da Polícia Federal (PF) apontam que há informações de que um prefeito da região teria recebido dinheiro para poder interceder junto ao governo estadual para que o tenente Olímpio continuasse no comando do Presídio de Patos.
Também dentro das investigações realizadas, um dos locais com intensa movimentação do traficante Dedé Oberon era o “Bar de Ariano”, que fica ao lado de uma faculdade particular da cidade, indicando a suspeita de que o lugar seria ponto de venda de drogas, em virtude da frequência de muitos jovens.
O relatório é assinado pelos delegados: Paulo Henrique Lima, Leonardo Paiva de Medeiros e Cláudio Farias de Almeida e pelos promotores deJustiça Pedro Nóbrega, Romualdo Tadeu Dias e Manoel Neto, do Grupo de Ação Especial Contra o Crime Organizado, emitiram parecer favorável para que o juiz de Direito, Fernando Brasilino Leite, expedisse mandados de prisão
Diretor nega regalias em favor de presos
O tenente Olímpio, o diretor citado pelo PF como facilitador da vida dos apenados com concessão de regalias, se defendeu dizendo que está sendo alvo de injustiça porque, na verdade, ele é cumpridor da legislação. “A lei de execução penal prevê uma série de direitos aos presos visando a sua ressocialização e eu não nego esses direitos. O que acontece é que a sociedade quer que o preso seja tratado sempre como bandido”, afirmou o diretor, acrescentando que se o preso tem direito a um benefício ele não vai negar. “Eu quero ser ouvido pela Justiça para mostrar que faço um trabalho sério, por isso, estou no cargo a tanto tempo”, se defendeu. Ao contrário do que revelou a Polícia Federal, o diretor afirmou que está na função há 18 anos e não 22. O diretor disse ainda que passou 30 anos na Polícia Militar e foi para a reserva com comportamento excepcional. Tenente Olímpio afirmou também que no presídio de Patos não tem fuga ou assassinato.
Lista dos acusados:
1. Rildo Tenório de Araújo (mora em Ji-Paraná/RO. Foi preso em Ariquemes/RO e é acusado de roubar uma aeronave em Barra do Garças/MT. Segundo a PF, existem fortes indícios da ligação de Rildo com a Farc Colombiana);
2. Dorival Sebastião (mora em Itapema/SC e também atuava em Uberlândia/MG);
3. Francisco Dantas de Sousa (conhecido como “Barata”. É acusado de liderar um grupo de traficantes no Maranhão. Está preso no presídio da cidade de Santa Inês/MA);
4. Kalymere Quadras de Melo (conhecido como “Kalil”, mora em Manaus/AM);
5. Wesley Moreira da Silva (mora em Várzea Grande/MT);
Rildo, Dorival, Francisco e Kalymere são acusados de fornecer a droga que vinha da Colômbia e da Bolívia para a quadrilha paraibana. Wesley é acusado de transportar o entorpecente.
Da Paraíba
6. José Oberon Laurentino de Sousa (conhecido como “Dedé Oberon”. É acusado de ser o chefe da quadrilha de traficantes de Patos, responsável por adquirir a droga com o grupo de Rildo e efetuar os pagamentos);
7. João Orismar Laurentino Sousa (é irmão de “Dedé Oberon” e membro da quadrilha de Patos. É acusado de atuar na receptação da droga e na contratação de advogados para soltar membros do grupo que estão presos);
8. Carloto Medeiros Oliveira (há indícios de que ele participava de crimes de pistolagem encomendados pela quadrilha);
9. Ariano Flávio Alcelmo Militão (acusado de ter um depósito de coco usado para guardar droga. A PF apreendeu drogas e armas no local. Ariano também é proprietário de um bar localizado próximo a Faculdades Integradas de Patos, que seria ponto de venda e consumo de drogas);
10. Wagner Sátiro Dantas de Sousa (filho de “Dedé Oberon”, é o responsável pela contabilidade da organização criminosa);
11. Silberto Pereira Morais (acusado de comandar de dentro do Presídio de Patos um subgrupo de traficantes que recebia a droga de “Dedé Oberon” e repassava para a região de Cajazeiras, Patos e para o Sertão do RN);
12. Cícero Costa de Medeiros Silva (conhecido como “Cicinho”, é encarregado de repassar a droga para a região de Cajazeiras);
13. Siberlânia Pereira de Medeiros (é irmã de Silberto, mora em Patos e emprestava a conta bancária para depósito e guardava a droga);
14. Maria do Socorro Lima da Silva;
15. Miguel Alventino da Silva Neto (conhecido como “Guel”, já tinha sido preso por tráfico de drogas e era responsável por receber a droga de Silberto e de traficá-la na Região de Itaporanga)
Fonte: Jornal O Norte